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Era uma vez um soldado que foi capitão de Abril (2012)

Gi Negrão

  
Era uma vez um soldado de um país muito cinzento, que teve de ir para a guerra que ele não queria. Quem mandava no país pouco sabia de guerras e do sofrimento que elas faziam, ou fingia que não sabia, mas com uma grande teimosia mandava para a guerra os soldados que sem quererem, tinham que para lá ir. Outros havia que fugiam, faziam como podiam, mas para a guerra é que eles não iam. Iam para França e outros destinos, que sabiam as razões porque eles fugiam, e, por isso, os protegiam. O país era mesmo cinzento. Os pais e as famílias dos soldados que iam para a guerra ficavam tão tristes, tão tristes, que era impossível ao país ter outra cor.
 
O nosso soldado, que foi depois capitão, já tinha ouvido falar de guerras. Quando tinha um ano de idade, acabou a 2ª guerra mundial, o que foi um grande alívio para toda a gente em todo o mundo. Claro que ele nessa idade não deu por isso. Tinha durado 6 anos. Já imaginaste?
Uns anos depois, andava para aí no 9ºano, o nosso soldado percebeu que alguma coisa ia mudar. O General Humberto Delgado era a grande esperança do país cinzento se tornar num país com um bocadinho de cor. Mas o nosso soldado, que depois foi capitão, percebeu mal. Ele ainda era muito jovem para conhecer toda a maldade que existia no país cinzento. O General Humberto Delgado perdeu obviamente as eleições. E o país continuou cinzento. Quando era já um jovem adolescente ouviu falar da guerra em Angola; ele nem percebeu muito bem qual era o sentido daquela guerra, mas quando ele era adolescente havia perguntas que não se podiam fazer, neste país cinzento, porque quem mandava no país não gostava que as pessoas fizessem perguntas. Por outro lado, havia pessoas que não gostavam daquela mania de mandar em toda a gente, que se indignavam e que, por isso, iam para a prisão. A cor do país não mudava: estava cada vez mais cinzenta.
 
 A seguir a Angola, veio a Guiné-Bissau e Moçambique. Eram os movimentos de cidadãos destes países, também chamados movimentos de libertação, a bater o pé, e a dizer que não, aqui mandamos nós, não esse país cinzento, que maltrata os seus filhos e filhas.
 
O nosso soldado, que foi depois capitão, não conseguiu fugir à guerra em Moçambique. Numa manhã cinzenta, neste país cinzento, foi para o cais de Alcântara, com muitos soldados, (muitos não foram capitães), tomar o grande navio que ia partir para Lourenço Marques
(agora Maputo).
O cais estava cheio de gente: mães, pais, filhos, filhas, tios, tias, sobrinhos e sobrinhas, famílias inteiras, que se tinham vindo despedir dos seus soldados e desejar que eles regressassem. Para muitos era uma questão de sorte, e eles partiam com essa angústia, que era uma grande aflição, que se via nos seus olhos, quando o barco partia do cais. Aliás, essa grande aflição era igual à que ficava e acenava do cais (já alguma vez ficaste aflito?) Olha, tenho a certeza de que aquela aflição era muito, muito pior).
 
 Cada partida era, para os que embarcavam e para os que ficavam no cais e regressavam a casa mais pobres, uma espécie de muitos corações partidos aos bocadinhos com uma esperança pequenina de que um dia fosse possível montar aquele puzzle sem que faltasse nenhuma peça.
 
Depois de Moçambique o nosso soldado foi capitão. Foi para a Guiné-Bissau. E este tempo em que andou a conhecer a guerra, nestes países de África, onde fez muitos amigos, fez dele um capitão sem vontade de fazer guerra e de lutar para acabar com a guerra.
 
Veio para Portugal, conheceu outros soldados que foram capitães, e que como ele achavam aquela guerra injusta (como quase são todas as guerras, não achas?). Formaram um movimento: o M.F.A. – Movimento das Forças Armadas.
 
O M. F. A. tinha alguns objectivos: o principal era que o país deixasse de ser cinzento. Isso queria dizer muitas coisas: que acabasse a guerra para que os corações deixassem de andar aflitos; que houvesse liberdade de expressão para que as pessoas pudessem dizer aquilo que pensavam sem ir para a prisão; que acabasse a PIDE, que era uma polícia que, às vezes, ia buscar os pais à cama, de noite, para os levar para a prisão, o que deixava os filhos muito aflitos, sem perceber porque é que aquilo lhes estava a acontecer. Como já percebeste, para além de ser um país cinzento, este era um país em que praticamente, por variadíssimas razões, as pessoas andavam todas aflitas. Era mesmo o país da aflição.
 
E, sabes, quando as pessoas querem muito que uma coisa aconteça e se esforçam e fazem tudo o que podem e sabem, as coisas acontecem mesmo!
 
É mesmo verdade: no dia 25 de Abril de 1974 aconteceu, neste país cinzento, uma revolução de cores. O país inteiro foi surpreendido pelo Movimento das Forças Armadas onde à frente, estava o nosso soldado, que foi capitão, que se chamava Salgueiro Maia.
 
Ele e os seus camaradas do Movimento (nunca podia ser uma pessoa sozinha a fazer isto tudo), como se fosse um filme de aventuras, prepararam tudo com muito cuidado e com muitas reuniões secretas (soube-se depois) e até inventaram umas senhas para comunicar uns com os outros, através da rádio. Claro que também lá tinham amigos. (ter amigos é uma coisa muito boa, ajuda-nos muito) Sabes quais eram as senhas? Se calhar, já as ouviste: Grândola, vila morena, do Zeca Afonso (já ouviste falar dele, não?) e, E depois do Adeus, do Paulo de Carvalho. Foi uma canção que ganhou o Festival (os teus pais lembram-se, hás-de perguntar-lhes!)
 
Como vês, para fazer bem uma coisa, que queremos que resulte, temos de ter um plano primeiro e de trabalhar com uma grande equipa. Depois é distribuir bem as tarefas e claro, cada um fazer bem a sua parte.
 
Voltamos ao nosso soldado, que foi capitão, e lá está ele no Terreiro do Paço, com os seus homens e os seus tanques, a convencer o capitão da fragata, que está no Tejo, de que melhor do que disparar contra Lisboa é render-se e ficar do lado dos que querem libertar o país do cinzento, que é a sua cor, desde há 48 anos. (Era corajoso ou não, o nosso capitão?)
 
Foi assim (enfim, com um bocadinho mais de dificuldade) que foi deposto o primeiro-ministro da altura, que se chamava Marcelo Caetano.
A alegria que se viveu nas ruas no dia 25 de Abril e nos dias seguintes contrariava o país cinzento, o país da aflição que até aí se vivia.
 
Agora era o país ao contrário: as pessoas não iam para a prisão, a pessoas saíam das prisões; o cais, de onde partiam barcos para a guerra, era agora o cais onde chegavam os barcos da guerra; já não era o cais da aflição, era o cais da reunião (não faltava nenhuma peça no puzzle); o país onde havia solidão (duas pessoas a conversar era sinal de suspeição), era o país da comunhão (na rua sentia-se esta súbita alegria nas pessoas que mal se conheciam); era finalmente o país de todas as cores, que as pessoas quisessem inventar.
 
Foi a muita coragem e a sabedoria deste capitão de Abril, Salgueiro Maia, que levou a que as pessoas viessem para as ruas (também a alegria delas, claro) e, que, nesse dia 25 de Abril de 1974, os tanques que inundaram Lisboa parecessem tanques de papel enfeitados com cravos vermelhos, que tinham sido oferecidos aos soldados num impulso de gratidão. As ruas de Lisboa estavam cheias de tanques, e uma multidão de gente a abraçá-los. O povo é quem mais ordena, era como se dizia, e gritava nas ruas (era muito, muito, muito mais gente que tanques).
 
Nos dias e meses que se seguiram, a rua era a casa das pessoas, que gritavam, com o Sérgio Godinho “a paz, o pão, habitação, saúde, educação, só há liberdade a sério… Era a democracia na rua, a democracia vestida de todas as cores, como as pessoas sonhavam há tanto tempo.
 
Há pessoas assim. Pessoas que fazem tudo o que está ao alcance delas para tornar os outros felizes. O capitão de Abril, Salgueiro Maia, foi sem dúvida um corajoso capitão, podemos mesmo dizer um herói que ajudou a escrever a História recente do nosso país. Já tinhas ouvido falar dele?
 
Tu, que gostas de coleccionar heróis, (eu sei) bem o podes incluir na galeria dos teus super-heróis. É que ele, sendo um soldado, que foi capitão como tantos, foi muito mais do que isso, como te contei. Por isso, merece um destaque especial na nossa História e no cantinho, que reservamos àqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.” (Luís de Camões, Canto I).
 E a terminar, podemos saudá-lo: Viva Salgueiro Maia, Viva o 25 de Abril. Achas bem?
 


04.Abril.2012
(Salgueiro Maia morreu há 20 anos)

 

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