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Guerra Colonial - Testemunhos

Guerra Colonial

Testemunhos

In G.A., van Uden, pág.567

Primero Testemunho
        “Quando a minha vida tomou rumo ao continente africano ...“.

  Tudo começou quando eu trabalhava na construção civil ..., nessa altura morava eu numa das cidades, para mim, mais lindas do norte, Vila Real. Esta era abraçada pela, também não menos bonita, Serra do Marão.  
  Tinha eu 19, quase a fazer 20 anos, quando recebo em casa um postal das forças armadas que dizia "... terá de dirigir ao (x) posto de recrutamento da região do norte para ficar sujeito às provas de selecção". Essas provas como hoje, visavam seleccionar os elementos para desempenhar o seu papel como cidadão, provas essas que incluíam uma consulta médica, e alguns exames psicotécnicos - onde a destreza e capacidade individual de responder ás questões era alvo de avaliação. Também a permanência e a representação de cada Força Armada Portuguesa: Marinha, Força Aérea, e Exército, no local visavam “conhecer e persuadir ” cada indivíduo que ali nas provas de selecção se encontrava, pois sempre houvera uma certa competição saudável entre estas três principais forças militares portuguesas. 
  Após o resultado dos exames de avaliação ou selecção se assim se pode dizer, fui, assim como muito dos presentes,  aprovado para ir cumprir o serviço militar que mais tarde começaria um dia a ser divulgado pelas altas patentes dos serviços responsáveis, por tal modo de selecção. 
  Agora com 20 anos fui então cumprir o serviço militar, que iria durar 4 anos. 
  Ingressei então nas Forças Armadas Portuguesas, na Marinha, como fuzileiro especial . 
  Durante dois dos quatro anos de intenso trabalho e aprendizagem passámos uns bocados menos bons, estou a recordar uma situação onde as palavras “... safem-se como puderem “fazia parte do quotidiano assim como da nossa preparação, quer física, quer psicológica ... . Encontrava-me a fazer um percurso de cerca 20 a 25 kms quase diários com uns companheiros meus, quando a ordem surgiu, de um dos dois sargentos que nos acompanhava, "soldados, vocês vão ter uma saída à noite e terão de percorrer de qualquer forma este percurso" entre a Serra de Monsanto, de onde partiríamos à noite e o quartel (chegada).  
  Se bem me lembro estava muito frio e nós estávamos vestidos de t-shirt e calções, pode imaginar o quanto devemos ter sofrido; também sem qualquer bússola para ajudar-nos na orientação até ao quartel, o que só dificultava as coisas. No entanto, como só possuíamos um mapa lá fomos pondo em prática o lema "safem-se como puder". O regresso foi cansativo, molhado e frio mas serviu para nos habituar a situações futuras da mesma ordem. 
  O regresso a casa era quase sempre à sexta ou ao sábado, mas o pouco tempo que tínhamos para ir a casa não deixava fazer muita coisa: ou acabava por dormir mais umas horas e punha o sono em dia, ou vingava a minha fome nos enchidos que os meus pais faziam para a minha família, sim porque eu tinha mais duas irmãs. 
  Quando recebi a informação de que tinha de combater em África, encontrava-me ainda a cumprir o serviço militar em Portugal no corpo de Fuzileiros. Foi no quartel que os nomes dos soldados foram afixados num placar que estava na messe onde eu e os outros meus colegas almoçámos durante quase dois anos, quero fazer uma observação - na marinha nunca passei fome ao contrário dos meus outros colegas da região de Vila Real que pertenciam às outras F.A ., de igual modo não havia distinção, se assim posso dizer, na qualidade e quantidade, assim como na confecção, da comida para nós soldados e alguns oficiais.  
  Então o meu nome estava entre muitos outros daquele regimento , não me lembro do que senti naquela altura onde o placar tinha um n.º de listas de nomes consideráveis. Tinha pois sido colocado numa zona em África - Moçambique - num aquartelamento no lago Niassa por um período de tempo que, à priori, seria de 36 meses,  e numa zona considerada de risco máximo/alto risco, onde a minha vida se iria alterar significativamente e onde eu me iria transformar inconscientemente numa pessoa com alguns problemas de foro emocional e nervoso, o chamado hoje de “stress de guerra“. 
  A partida para Moçambique foi em 14-12-1973, quando embarquei num avião das Forças Armadas Portuguesas, o 707,  no aeroporto de Lisboa  o aeroporto da Portela). Tinha saído de casa sem dizer nada aos meus pais, como de costume (estes julgavam que ia para o quartel e só souberam que eu estava em Moçambique quando lhes escrevi passado alguns dias).Foram 12 horas de viagem até África, tendo o avião feito escala em Luanda num local chamado Beira (onde saí). Pernoitamos aqui no aquartelamento dos Pára-Quedistas, e no dia seguinte fomos da região onde nos encontramos (Beira) para Nacala na fragata “João Belo”.  
  Chegado a Nacala fui para norte de Moçambique de comboio até Vila Cabral; daqui fui de “Berlier” para o futuro quartel onde iria passar o meu tempo de fuzileiro, e onde estaria por um tempo ainda indeterminado, pois podia ir de 14, 24 ou 36 meses no mato. 
  Quando fiz a minha primeira patrulha embarquei numa lancha rápida armada com uma arma antiaérea, e vinham mais alguns companheiros de armas. A patrulha era constituída por uma equipa mista pois existia no mesmo pelotão indivíduos da marinha, força aérea, e exército.

               Cada um de nós (pelo menos eu) transportava uma mochila e dentro desta trazia uma espécie de “cobertor” e duas ou três injecções que tinham como finalidade ajudar a combater uma picada de algum insecto ou animal durante a campanha, trazia, ainda comigo, ração de combate. 
  O camuflado também fazia parte do nosso equipamento, assim como o sabre que me acompanhava, a G-3 “a minha companheira no mato”, e também uma arma de grande peso e medida, a quem os guerrilheiros ganharam respeito, a MG-42. Desta última era apenas transportada  uma ou duas. Assim como o camuflado acompanhavam-me também as botas, a boina e as placas de identificação - em que metade ficava no quartel e a outra metade andava comigo-, é importante referir que nas placas vinham os seguintes aspectos: número do soldado, o nome deste, e o tipo de sangue. 
  Chegado ao local da minha primeira missão após ter desembarcado observei a lança a partir e coloquei a mim próprio uma questão “Que faço aqui?“.  
  Durante esta primeira, de muitas patrulhas, grande parte das funções eram de reconhecimento e defesa, “bater o terreno”; a comunicação em caso de expirar o tempo da dita missão era feito via rádio, o qual era transportado por um dos meus companheiros. 

Operação Rio Nene no Leste de Angola, in G.A., Raposo, pág.597

  A duração da missão durava um dia ou doze horas (até o render do pelotão), a palavra descanso ou dormir era quase como uma miragem; o pouco tempo que parávamos era, ou para comer qualquer coisa, ou para pousar a G-3. A segurança do grupo era vigiada por um ou mais sentinelas do contingente quando descansávamos. Por cada vinte e quatro horas passadas no mato passávamos quarenta e oito no quartel.

  A comunicação feita durante uma batida ao terreno era feita através de gestos por cada um de nós ou por um código fonético que entre nós decorria sempre que necessário, a nossa composição ou forma de patrulhar o local era feita ou em tipo de “V“ ou em linha, conforme os locais e situações, é claro.

  Episódios em Moçambique: um dos muitos em que eu participei é este que revelo. Desenrola-se antes do período da dita independência em 1974. Os elementos da Frelimo, comandados pelo Comandante da altura (Samora Machel), numa zona em Lourenço Marques, no comando naval as tropas do supra citado grupo guerrilheiro faziam operações de stop, onde de 5 em 5 metros na (Avenida principal da Praia da Costa do Sol ), alguns condutores revistados colaboravam. Mas para alguns, começava-se a tornar aborrecido pois uma família que parava três vezes num espaço de 300 a 400 metros fazia esgotar a sua paciência, pelo que aumentava o interesse dos guerrilheiros em fazer parar os inúmeros automóveis de famílias brancas e negras que fugiam da guerra ... . A verdade é que as operações da Frelimo não tinham razão de ser, uma vez que já  controlavam esta região e a próxima, era, sim, um factor que já apontava para a independência... entre muitos indivíduos que passaram na operação stop, houve um condutor que seguia numa Renault 4L que recusou-se a parar perante a ordem dos guerrilheiros e um deles agarrou na arma que possuía - a Kakashnikov, arma de fabrico soviético - e começou a disparar, um dos tiros foi de tal forma certeiro que acabou por perfurar a mala e foi atingir a coluna do condutor... . O cruzamentos de tropas de ambos os lados - Forças Armadas Portuguesas e Guerrilha de Moçambique - em plena luz do dia revelava já alguma alteração na política de Salazar, ou passava-se algo de muito estranho que nós não sabíamos. Mesmo assim a desconfiança pairava no ar e a minha mão agarrava o cabo onde estava o gatilho cada vez que nos cruzávamos com elementos da guerrilha. Aproveito para realçar que eu, assim como o resto dos meus colegas desconhecíamos o "25 de Abril" , pois continuei em guerra até mais tarde, isto é, para além de Abril.
  
  Outro episódio num aquartelamento de fuzileiros em Machava (Matola), onde existia uma penitenciária que fazia “paredes meias” com este aquartelamento, os elementos da Frelimo, que nessa altura eram os guardas da penitenciária disparavam por vezes sem que houvesse motivo para tal atitude contra o aquartelamento onde eu me encontrava em serviço. Todavia nesta povoação existia, para além do já referido quartel e penitenciária, uma fábrica de cerveja de nome “2 M“, que pertencia a proprietários brancos. Os funcionários dessa empresa eram de raça quer branca quer negra. Os negros (naturais de Moçambique) neste dia içaram a bandeira da Frente de Libertação de Moçambique - Frelimo -  nas instalações da fábrica, o resultado foi um dia de muita confusão, uma suposta (e segundo o que nós observámos enquanto patrulhávamos essa localidade) revolução entre negros e brancos. Os inúmeros mortos de ambas as raças ou eram mortos à catanada ou a tiro de pistola por parte dos brancos, ainda no decorrer deste episódio houve pessoas e suas famílias de raça branca que se refugiaram no aquartelamento onde eu estive a cumprir o resto do tempo da “tropa colonial”. No entanto, neste episódio bastante comprido, o aparecimento de um helicóptero de local ainda por saber hoje, começara a disparar sobre o quartel, onde se tinham refugiado as pessoas dessa fábrica que assim fugiam da revolta dada na fábrica, atingindo algumas pessoas. Os sentinelas deste quartel através dos meios próprios e existentes em tal época comunicavam entre si para dar uma resolução sobre a situação insólita que decorria neste dia e eu e outros soldados respondemos da mesma forma, disparando. E durante alguns minutos deixou-se de ouvir o choro das crianças e gritos das mulheres que ali se encontravam refugiadas. Mas a verdade é que ninguém sabia a nacionalidade ou até mesmo raça dos elementos desse helicóptero, todavia alguém puxou dos binóculos e disse “ ...são brancos que disparam ...“, eu não quis acreditar e julguei tratar-se de indivíduos que se tinham passado ou deixado subornar pela facção contrária.

  Outro episódio, em primeira pessoa,  estava eu no cinema (numa das minhas muitas licenças) e de súbito surgem alguns soldados da Frelimo, que se puseram a fazer uma rusga a esse local onde eu me encontrava, assim como muitos outros colegas que acabavam de ter as suas licenças e que procuraram esse cinema (para fugir à realidade que nos esperava no mato quando para lá voltássemos). Os soldados guerrilheiros com a ajuda do porteiro identificavam os soldados portugueses que aí se encontravam levando-nos para a rua onde nos questionavam.

  À nossa frente e parado estava um jipe da polícia (possivelmente roubado à P.M.), lá dentro se bem me lembro estava um condutor de raça negra. Então os tipos da Frelimo levaram-me para dentro do tal jipe e, já dentro deste, ameaçavam-me de fazer isto e aquilo começando por puxar o cabelo. Fui então levado para um quartel Português e por ironia do destino era o meu de onde eu tinha saído a algumas horas atrás... Quero sublinhar este aspecto (neste período final da guerra colonial as forças portuguesas davam instrução aos guerrilheiros - situação para mim muito esquisita e de difícil compreensão), pois passei quase dois anos no mato a matar estes “gajos“ que assim como nós tinham a mesma função: matar e destruir no mato de Moçambique ...  . Fui então presente pelos guerrilheiros ao meu comandante, e este pediu que me identificasse, coisa que fiz de imediato. O meu comandante diz  mas este soldado faz parte do meu pelotão ele é fuzileiro português“ foi então que, para minha admiração, os guerrilheiros assim como uma alta patente da Frelimo pedem desculpa pelo incómodo pois pensavam tratar-se de um outro indivíduo que há muito procuravam. De imediato os guerrilheiros foram chamados por um dos seus superiores, à parte e num local longe da improvisada “reunião” e este pede a um deles a sua arma (Kalashnikov) e com a coronha (parte da arma que é apoiada no ombro do soldado quando dispara) agride os seus soldados alegando que foram irresponsáveis para com o o seu objectivo. Eu longe da situação apenas os via a gritar pedindo perdão, pois não consigo imaginar o porquê do recurso á violência se um pedido de desculpas formal bastava ser dito pela alta patente, mas a disciplina devia ser uma das armas preferidas dos guerrilheiros... .

Na Canda, in G.A., Almendra, pág.733

  No dia seguinte, à noite eu fiz parte de uma patrulha que tinha como objectivo procurar "gambosinos" (ou perder tempo se assim posso dizer) pois a guerra tinha praticamente acabado e um exemplo disso era o cruzar de soldados das duas facções em plena luz do dia, algo insólito e inseguro, coisa que não compreendo ainda hoje. Mas continuando, a noite de ronda foi comprida, encontravamo-nos numa rua onde as discotecas e pubs eram frequentadas (agora) só pela raça negra e foi num desses pubs que se passou este episódio. Entrei mais o resto do pessoal que tinha ficado a fazer essa ronda , e começamos a pedir que as pessoas se identificassem coisa que para alguns moçambicanos foi uma ordem não aceite. O exemplo disso foi uma senhora ou jovem ainda de uma idade pouco madura, que recusou identificar-se, chegando ao ponto de maltratar (verbalmente) um dos meus colegas fuzileiros, "como esta situação me fez lembrar a noite passada no cinema, pensei para mim ...", de imediato esse meu colega agarra num cinzeiro e atira-o à jovem, vindo a acertar-lhe. A rapariga sai do pub ferida e possivelmente recorreu a algum elemento da Frelimo que devia andar pela rua destes bares, e que de imediato apareceu no dito pub onde nos encontrávamos a identificar as pessoas.  Os guerrilheiros apareceram e perguntaram-nos o que se passava, nós apenas nos limitámos a responder “não têm nada a ver com isso“, acredite ou não foi o suficiente para começar uma troca de tiros entre esses tipos e nós, tudo o que havia em cima das mesas e no bar ficou em cacos, As pessoas, essas, começaram a fugir e cada um de nós abrigou-se das balas que por ali andavam perdidas. A situação estava a agravar-se e eles como eram em maior número continuaram a revelar as suas intenções através das munições que disparavam para todo o lado. O pub possuía uma escada para onde dava saída á rua principal e foi por aqui que todos nós saímos a correr e a disparar para trás como estes faziam no mato (parece que aprendemos alguma coisa com estes indivíduos). Já cá fora dialogamos entre nós e chegamos a pedir ajuda à Polícia Militar, que por ali circulava de jipe, mas estes julgavam-se os melhores, e não apareceram no local, alegando que havia em outro lugar uma situação ainda mais delicada do que a nossa. Então foi aí que eu peguei numa granada  tipo “pinha“ e coloquei-a debaixo de um dos degraus da escada, então avisei os meus colegas - “fujam vai arrebentar“ - então era quem mais corria rua abaixo, foi então que a granada arrebentou. Demorei um pouco a fugir pelo que alguns estilhaços me feriram no pulso direito onde já anteriormente tinha levado um tiro de metralhadora, mas continuei a correr “acabei assim com aqueles tipos“ pensei para comigo, não me sinto orgulhoso do que fiz, mas ou eram eles ou nós!

  As minhas horas de repouso, preenchia-as escrevendo aerogramas - (tipo os chamados hoje de telegramas só que os primeiros iam por via aérea e demoravam muitas vezes 2 ou 3 meses  a chegar) à minha futura mulher, com cujo hoje tem um jovem com 21 anos que estuda; também ia ao cinema coisa de que gostava muito e já não vou a um desde que vim para Portugal; passava ainda algumas horas a mergulhar num dos maiores lagos de Moçambique e onde estive num aquartelamento, o lago Niassa; jogava também à bola com o pessoal do regimento de fuzileiros e dormia “ao fresco“ debaixo das enormes árvores que por vezes formavam umas copas que quase cobriam o céu, árvores de um diâmetro enorme ... . 
  O meu Regresso a Portugal:  regressei quando a independência se deu, ainda me lembro... embarquei no mesmo aeroporto onde havia chegado há dois anos, e não parecia ter mudado, para mim continuava na mesma . Chovia “a potes”, eram aquelas chuvas, as muito fortes que duravam cerca de 15 minutos para depois serem substituídas por um calor abrasador. O avião foi o mesmo, o 707. Como eu sentia falta de casa, da minha família (pais, irmãs e futura mulher). Já no ar olhava por um dos portículos que o avião possuía e sentia deixar para trás uma parte de mim, não que me fizesse falta, mas porque durante esses dois anos de “mato” me fiz mais homem e fez-me ver coisas,  pessoas e situações que nunca julguei ver a 12 horas de viagem de Portugal . Quando cheguei ao aeroporto, onde tinha embarcado (aeroporto da Portela), sem saber se voltava ou não a ver a minha família, senti as variações e diferenças climáticas, a data não me recordo “...é que passei tantos dias no mato que as pessoas esquecem o significado do tempo“ mas sei que foi em, Maio-1975, estive mais tempo para além do dito que tinha de cumprir, parecia que o estado Português por um ano, após o 25 de Abril de 1974, se tinha esquecido dos seus soldados! Cumpri mais que o meu dever militar, pois matei e andei na savana sem saber porquê, assim como tantos outros. 
  Lembranças, essas, são muitas e vão estar comigo para sempre, recordo a zona onde estive, no Lago Niassa, bonita zona. Guardo alguma tristeza  pois não sabia o que fazia com a arma no mato a lutar, contra o tempo e contra o inimigo.

A angústia, também essa, está muitas vezes comigo e a agonia também, pois ver o que vi, sofrer o que sofri e sentir o que senti..., também o desespero me acompanhou , pois nao sabis se seria um dos que ficava ou regressava. Nesta situação era o destino que guardava a resposta.

  Sonho muitas vezes com o que passei no mato e testemunha disso é a minha família, especialmente a minha mulher, desde o “gritar em sonhos“ como também no dizer “..está ali um, dispara, mata-o ... rápido”). 
  Se houvesse guerra novamente, preferia morrer do que passar aquilo que passei, é que é muita coisa para um homem ou jovem, naquela altura com 20 anos, sofrer o que sofri... . Ainda recordo muitas vezes as situações no mato, desde os tiros, o trabalhar dos helicópteros, as lanchas a cruzarem o lago e os rios, o barulho dos pássaros e os gritos dos pequenos macacos, etc., recordo como se tivesse vivido ontem.

No Leste de Angola, in G.A., Gonçalves, pág. 750

 

               Acabo desta forma com algumas lágrimas nos olhos e te digo a ti meu jovem: espero que nunca passes o que eu e muitos colegas meus passaram e que hoje ainda pensam nisso, pois não acredito que tenham esquecido completamente, é muito difícil fazer tal coisa.

  Agora há que recuperar o tempo que perdi  na guerra colonial, junto da minha família. Considero-me um homem cheio de sorte na globalidade, pois estou vivo e sou pai e marido de duas pessoas que gosto muito, e que o meu filho, se fosse crescido, ter-se-ia de certo oferecido para ir em meu lugar, e a minha esposa que tem uma paciência e compreensão inalcansável por qualquer outra do mundo. É bom termos alguém que gosta de nós, mesmo que por vezes eu perca o meu autocontrole, pois a guerra mudou-me e afectou-me muito ... .

  Apenas deixo uma palavra a todos que lerem este testemunho, sejam felizes!

E quem tiver um pai na minha situação (que conviva diariamente com os sonhos da guerra) que o protejam e que lhe dêem força e contribuam para a união da sua família.

  Quanto aos meus colegas de combate apenas lhes desejo os melhor, e quem sabe se um dia destes não nos vemos lá em cima ... .
  Obs. : este texto foi produzido com a colaboração de um soldado português - Fuzileiro - que esteve na guerra colonial . A produção do testemunho foi elaborado segundo as memórias facultadas pelo ex-combatente, pelo que houve partes do mesmo que se teve de ocultar por oferecerem algum risco, evitando assim alterar a sua vida.
“A guerra começou com o gritar da G-3 e calou-se com as lágrimas do soldado“

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Segundo Testemunho

 

            Trabalhava na construção civil e na industria hoteleira quando fui chamado para a vida militar aos vinte e um anos. 
  A partida para África foi, após a formação de recruta (que desempenhei num mês de serviço cá no continente) e após um mês de férias, quando fui chamado pelas altas patentes, ou pela responsável pela selecção e mobilização dos soldados portugueses. Tinha na altura vinte e dois anos, encontrava-me na altura a gozar as férias em minha casa quando recebi um postal a informar-me que estava mobilizado para Angola. Ao início foi para mim uma alegria, pois era algo novo e ia conhecer um mundo novo, terras novas, pessoas diferentes das que conhecia, para mim era uma novidade... .

  A reacção da minha família foi de consternação, dor e tristeza  pois não sabia para o que ia, muito menos se voltava com vida e “inteiro”, mas graças a Deus correu tudo bem pois estive numa zona praticamente sem guerra.

A ideia que eu tinha de Ultramar, assim como todo o jovem na altura, é que havia guerra um pouco por todo lado em África com combates e mortes. 

            No entanto quando lá cheguei tive uma imagem de Ultramar totalmente diferente, do  que era e foi antes do 25 de Abril .Pois a guerra era pouca ou nenhuma e muito diferente daquilo que todo o militar imaginava, o continente, ou como queiram chamar, era em si uma maravilha e o clima africano era espectacular, para isso basta o seguinte exemplo: o inverno quase não existia (pelo menos na região onde estive), e existia fruta de todas as qualidades.

  Passei à reserva em 3 de Fevereiro de 1973, no que diz respeito à guerra. Passados dois anos ingressei na Guarda Fiscal até à sua extinção e com a sua extinção, todos os militares que quiseram foram integrados na Guarda Nacional Republicana e assim só passarei para a reserva em 2003. 

  A minha primeira missão no Ultramar, não passou de uma longa caminhada pelo mato ao fim da tarde, e depois de tanto caminhar paramos para passarmos a noite. Foi quando aconteceu o pior enquanto uns preparavam as tendas, outros preparavam a comida, sentinela e procuravam água.Quando estava tudo pronto para passarmos a noite, rebenta um súbito tiroteio que passado algum tempo terminou com uma busca. Na busca capturaram-se,  terroristas que também estavam ali perto para passar a noite – um pouco insólito, pois com tanto “mato” fomos logo calhar dormir ao lado do inimigo. No fim do tiroteio decorreu-se à prisão dos terroristas, que eram três, assim como diversas armas. Por mais que me custe acreditar eles possuíam, se assim posso chamar, “reféns”, pois estas pessoas encontravam-se em seu poder até ao seu regaste feito por mim e pelos meus “colegas do mato”. Estas tinham sido retiradas das suas casas e terras e levadas para o mato, onde possivelmente seriam ou ameaçadas de morte em troca de possíveis informações, exemplo: a localização de alguns acampamentos dos Portugueses, ou apenas para serem “convidados” a fazer parte deste ou de outro grupo guerrilheiro.

  Nas horas vagas passeávamos, comíamos e bebíamos ou íamos à praia, assim como também se tratavam das armas, escrevíamos á família, entre outras coisas.

  Um episódio de que me recordo, foi de um dia em que estava eu e mais três colegas meus, que tivemos que percorrer mais de sessenta quilómetros para o hospital com uma criança com um grande corte no joelho, que teve de levar bastantes pontos.

  O regresso à pátria foi de imensa alegria, por ter cumprido o meu dever, assim como ao mesmo tempo, de tristeza pois apesar de ter estado em combate em Angola, criei muitas amizades, de toda a espécie e isso deixa saudades. 
  O meu regresso a Portugal, ou seja a casa, foi indescritível e a integração na sociedade foi da melhor maneira possível, pois agora estava no seio da família.

  As lembranças que eu tenho de Angola, é a paisagem assim como a quantidade e variedade de fruta – como a fruta e as praias - passei belos tempos, pois dei-me lindamente com aquilo tudo. É bom estar vivo e de boa saúde ...

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