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Coleções - Legislação - Vasco Gonçalves no Sabugo (21/2/75)

VASCO GONÇALVES NO SABUGO1

(21/2/75)

«É aqui que eu me sinto em minha casa. Entre as Forças Armadas e o nosso Povo.» Estas foram as primeiras palavras de uma importante comunicação feita ao País pelo brigadeiro Vasco Gonçalves, a partir de uma sessão de dinamização do M. F. A, realizada no Sabugo, no salão de uma modesta colectividade local, onde estiveram também presentes os capitães Vasco Lourenço e Pinto Soares, major Pereira Pinto e comandante Contreiras da Comissão Coordenadora, e ainda o brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho.
«Venho aqui a uma sessão de dinamização das Forças Armadas porque quero manifestar publicamente quanta esperança e quanta confiança nós temos nesta acção cívica desenvolvida pelas F. A., desenvolvida em particular no seio da classe trabalhadora.»
«Nós não vimos aqui com intuitos paternalistas. Não vimos trazer-vos a verdade e a solução dos vossos problemas. Vimos aqui aprender convosco. E no contacto directo com as populações que as F. A. avaliam das suas necessidades concretas.»
Referiu-se a seguir aos contactos dos militares com o povo, o que lhes permite quando regressam voltarem mais conscientes:
«O povo português tem hoje uma oportunidade rara de ver à sua frente um futuro que tem de ser construído pelo próprio povo em conjugação com as F. A. Para esse futuro nós fizemos o 25 de Abril. Procurámos dar os passos que necessários foram para que, de facto possamos construir no nosso País uma verdadeira democracia política, económica e social. Consideramos que é uma missão fundamental das F. A. vir aqui até vós. Todo o militar desde o oficial ao modesto soldado, antes de mais é um educador, mas os educadores têm que aprender com os outros que procuram educar. Com aqueles que procuram ensinar.»
[...]
«Os militares quando regressam dessas sessões, eles próprios vêm mais politizados, mais conscientes das suas tarefas. Vêm mais democráticos. Nós também democratizámos as Forças Armadas com estas sessões de esclarecimento cívico da nossa população e fortalecemos assim a unidade Povo/Forças Armadas que é uma condição fundamental do nosso progresso em paz e sem tiros. Infelizmente não trazemos no bolso as soluções dos problemas que vos afligem há centenas de anos. Mas auscultamos as populações, fazemos um inventário, ficamos com a ideia das suas necessidades, apontamos - e isto é fundamental o caminho da tomada de consciência acerca das forças que se opõem à satisfação das necessidades elementares do nosso povo. Apontamos o caminho do associativismo - na união se faz a força -, o caminho da libertação de mitos ancestrais que amedrontam tanta gente há tanto tempo. Detectámos as mentiras, desmascaramos calúnias.»
«Aos peitos dos nossos soldados também há crucifixos. Os nossos soldados também se deslocam a vós com crucifixos. Se é assim porque nos caluniam? Porque chegam a dizer que damos ordens para retirar os santos e os crucifixos? Quem espalha essas calúnias? Quem está interessado em que o nosso povo não se liberte? Antes do 25 de Abril, por exemplo, não havia trabalhadores do campo organizados em sindicatos. Quantos vemos nós? A vida sindical expande-se. Os trabalhadores aprenderam que, através dessa união, irão defender os seus interesses e os do País, que são os mesmos. E assim, no distrito de Beja, por exemplo, há neste momento as maiores searas de sempre. Isto é devido a quê? Ao 25 de Abril e à tomada de consciência que a nossa revolução vai dando ao nosso povo. Isto é tremendo para quantos tratavam as classes mais desfavorecidas como os senhores feudais tratavam os seus servos.»

A questão do saneamento

«E preciso que tenhamos à frente da função pública como das empresas, pessoas capazes, pessoas dinâmicas, pessoas imbuídas do espírito do 25 de Abril, pessoas que queiram de facto formar um Portugal novo. Temos muita burocracia, muito legalismo, há muitas pessoas que, habituadas à situação anterior, não assumem verdadeiramente as suas responsabilidades, têm medo das responsabilidades. Então, agarram-se muito à burocracia e ao legalismo. Mas é preciso romper com isso, é preciso que os melhores sejam colocados à frente dos lugares mais importantes. É preciso que tenhamos de facto uma democracia da competência. Daí nós compreendermos a ansiedade que por vezes notamos no País, no que respeita ao saneamento.»
[...]
«Mas o saneamento não é perseguição vesga nem perseguição vingativa. Temos que ter presente que todos os homens são transformáveis, mas queremos gente competente. Não devemos sanear cegamente, porque nesse caso somos injustos, e com a injustiça dos nossos actos nós comprometemos o nosso futuro e o ideal por que nos batemos. Temos permanentemente que procurar ser lúcidos, justos e admitir que as pessoas se transformam, que muitos daqueles que nós julgamos nossos inimigos o são, na prática, porque não foram esclarecidos de outra maneira, porque foram criados num determinado conjunto de circunstâncias.

Os boatos e as calúnias

É claro que há muita gente que não está interessada no desenvolvimento do nosso processo. Entre nós e lá fora. Desencadeiam-se contra nós campanhas de calúnias a nível internacional, quando nós vivemos na tranquilidade e fizemos uma revolução sem um tiro.»
[...]
«Chega-se até a falar - disse- que estamos à beira da guerra civil. Onde é que isso se verifica Pois se nós, depois do 25 de Abril, tivemos duas mudanças de presidência da República sem sequer impor o recolher obrigatório! Não é isto a maior prova da nossa tranquilidade?
«Quando vos agitarem com esses papões, cheguem-se às Forças Armadas. Vejam a sua tranquilidade, a sua calma e a sua segurança, e logo terão as palavras de conforto. Vivemos num clima de tranquilidade. Temos de facto lutas a nível laboral, a nível de saneamento, etc., mas isso não significa que não haja tranquilidade pública, que não haja tranquilidade nas ruas, que não vivamos a nossa vida, que não sejamos um povo pacífico, um povo ordeiro. Não nos deixemos dividir... É a unidade, a unidade do povo português com as Forças Armadas, que poderá garantir um processo que se desenvolva num ritmo pacífico, num ritmo sereno... Não podemos perder a consciência de que vivemos uma revolução, que se têm operado apreciáveis transformações no nosso País e que tudo se tem operado sem 
tiros... Vivemos uma revolução... E natural que as pessoas falem de política, se agitem, se interroguem...)»

Descolonização

«Eu penso - sublinhou - que é uma vitória extraordinária do Movimento das Forças Armadas. Os nossos militares deixaram de ir para a guerra e irem para a paz. Mas não quero dizer que não possam ter de combater, porque temos deveres a cumprir no Ultramar, de acordo com os compromissos assumidos. Estamos a desenvolver um processo de descolonização ímpar na História. Assistimos a isto num país que só perdeu com a política colonial. Alguns terão ganho, aqueles que tinham lá grandes capitais e que os deslocaram, até, para fora de Portugal. Esses ganharam com as colónias, mas o povo português nunca ganhou com as colónias. E herdámos um passivo tremendo nesses territórios. Mesmo assim, celebrámos acordos com esses povos, que ajudámos a libertar, e que conquistaram, também eles, a sua própria liberdade, pela luta que nos moveram, não foi só o Movimento das Forças Armadas. Nós e eles contribuímos tanto para a libertação das antigas colónias portuguesas como para a nossa libertação aqui em Portugal.»
[...]
Das verbas do Estado português, no nosso orçamento - disse Vasco Gonçalves - vai dinheiro para o Ultramar, porque esses povos também ficaram na miséria depois da política do fascismo. E se queremos cimentar uma verdadeira amizade com eles, e queremos estar à altura das nossas responsabilidades históricas, temos de contribuir hoje, ainda, para a vida desses povos. Não estão, ainda, em condições de prescindir do nosso auxílio [...] E mais: temos lá as nossas Forças Armadas para garantir que, nesses países, se estabeleçam regimes democráticos. Desejamos que esses povos se tenham libertado de nós para serem livres e não para serem oprimidos por outros povos. Portanto, precisamos de contribuir com dinheiro nosso, com dinheiro que é vosso [...] São menos casas que aqui construímos, são menos estradas, ou menos escolas. Mas temos um dever para com esses povos [...].»
«Os nossos militares poderão continuar a ter de morrer, apesar de termos feito a paz. E isso verificou-se, o outro dia, em Luanda. Mas hoje não é por nossa vontade.
As nossas tropas estão ali para garantir que a independência desses povos se realize. Não desejamos a morte dos nossos soldados. Mas temos acima de tudo de cumprir, com honra; os nossos compromissos.»

O momento em que vivemos

«Eu penso que o momento histórico que estamos a viver é um momento comparável a 1820, a 1836, a 1910. Nestas datas, perspectivas se abriram ao futuro dos portugueses e essas perspectivas foram iludidas. Pois bem: é um dever de honra do M. F. A. e de todas as forças progressivas e patrióticas do nosso país que não deixem quebrar essa esperança, que nós desta vez não percamos o nosso futuro.
«E é preciso termos a consciência do momento que vivemos. Nós vivemos um momento histórico, um momento como não viveram os nossos pais, como não sabemos se viverão os nossos filhos [...].»
«Estes momentos são raros na história portuguesa. E preciso que tenhamos a consciência disso e é preciso que, tendo a consciência de que somos os construtores do nosso futuro, saibamos dar os passos com a lucidez - eu repito, estou farto hoje aqui de falar na lucidez, mas a lucidez está ao alcance de todos. E dois homens são mais lúcidos que um só.
«É conversardes entre vós, é discutirdes, é procurardes de facto os caminhos que interessam a vós, que são os caminhos que interessam à nossa Pátria. Sede lúcidos! Pelo facto de muitos dos portugueses não saberem ler, não quer dizer que não sejam lúcidos. Eles aprenderam na sua vida prática, na sua vida quotidiana, eles sabem resolver os seus problemas quotidianos, eles sustentam a sua família. Há muita gente que não sabe ler e escrever e que mandou os filhos estudar.
«É um dever de honra dos filhos dos trabalhadores honrarem-se com essa ascendência.»

Os inimigos da Revolução

«Há um problema também que é muito importante para o povo português: definir bem quem é o seu inimigo. Penso mesmo que os nossos partidos políticos devem ter isso em atenção. É que a reacção e o fascismo ainda não morreram em Portugal, ainda não estão completamente batidos. E nós temos de ter isso bem presente. Isso mostra-se em actividades quotidianas, como sabotagens económicas, com homens que não queiram deliberadamente cultivar as suas terras, ou gente que não trabalha na função pública como deve trabalhar, ou gente que não esteja ao serviço daqueles que os procuram como deve estar. Tudo isso são variedades de fascismo e de reacção.
«Gente que queira viver como antes. A gente hoje não pode viver como vivia antes do 25 de Abril.
«Nós devemos hoje, quando vamos para casa, pensar na nossa Pátria, naquilo que vamos fazer amanhã, naquilo que é preciso fazer pela nossa Pátria. E isso é dever de todos, não é só das cúpulas, não só de meia dúzia de indivíduos, não só do M. F. A. ou das direcções dos partidos políticos, é um dever de todos os portugueses, é um dever das massas, é um dever vosso, porque isto é vosso. Deveis ter isto bem presente. É para isto que eu chamo a atenção para a vossa vigilância. Mais uma vez eu repito: não é transformar os portugueses em polícias, é antes, de cara bem aberta, olhos nos olhos, criticardes aquilo que virdes mal, mas com firmeza e tolerância. Estardes alerta de facto para aqueles que são os nossos inimigos, os inimigos da nossa Revolução.»

Institucionalização do M. F. A. - garante da Revolução

«As Forças Armadas devem ser um impulsionador e um garante da revolução portuguesa.
[...]
«O Movimento das Forças Armadas é o aliado de todos aqueles que tenham as ideias que estão no nosso Programa. Nós pensamos que sobre os nossos ombros há uma grave responsabilidade histórica a cumprir. Nós não desejamos apenas mudar as moscas em Portugal e que o resto fique na mesma - e julgamos que já temos dado bastantes indícios disso. Nós desejamos, de facto, que no nosso país seja construído, com firmeza, o caminho verdadeiro para a democracia política, e económica e social, e não só para a democracia política. Para isso o nosso Movimento, as Forças Armadas, têm que continuar a sua tarefa. Ela não termina quando forem institucionalizados ou começarem a funcionar os novos órgãos da soberania da Nação que hão-de ser estabelecidos na futura Constituinte.»
Independência Nacional
«Nós desejamos construir de facto uma Pátria à nossa medida e à nossa escala. Não andamos a copiar modelos alheios. Queremos construir uma Pátria baseada na experiência que vamos tendo e no raciocínio sobre essa experiência que formos fazendo. Nós queremos ser os construtores do nosso próprio futuro, um futuro que seja um futuro de independência nacional, um futuro aberto a todos os povos do mundo, um futuro que tenha em consideração toda a abertura que hoje temos em África. Por exemplo: ainda há dias a Organização de Unidade Africana levantou o embargo das relações com Portugal. Quer dizer, hoje, livremente, todos os países da África se podem dar com Portugal. Porque nós somos um país pobre, mas a maneira como temos descolonizado dá-nos um grande valor moral, dá-nos uma grande autoridade moral em África, onde estamos construindo novas pátrias de expressão portuguesa. Nós deixámos lá tudo, nós não trouxemos nada de lá, deixámos lá os estabelecimentos que tínhamos, os palácios do Governo que havia, nós não tirámos de lá o mobiliário, não tirámos de lá as instalações, não tirámos de lá os aparelhos de ar condicionado, deixámos lá tudo porque somos generosos e francos, isto é um grande exemplo para todo o mundo.»

O plano económico

«Vai ser apresentado o Programa Económico e Social. Pois bem: para que esse Programa Económico e Social possa ir para a frente, é necessário uma participação activa e impulsionadora do Movimento das Forças Armadas, em aliança com todos aqueles que estejam dispostos a ir para a frente connosco. Mas nós pensamos que é fundamental que sejamos nós os impulsionadores e garantes desse Programa Económico e Social. Esse Programa, do qual dentro de pouco tereis conhecimento, define orientações gerais. E um instrumento de trabalho. É uma plataforma de compromisso entre o Movimento das Forças Armadas e os partidos da coligação. Sobre esse Programa o M. F. A. deve ter uma participação activa, para garantir que ele vá dentro do sentido segundo o qual ele foi concebido.
«Daí também essa necessidade de institucionalização do Movimento das Forças Armadas. Esse Programa aponta uma via socializante, e de entre outras, eu desejaria salientar como mais progressivas algumas das medidas que a seguir vou ler: O controlo do sistema bancário; a lei sobre o arrendamento rural, sobre os baldios, sobre os planos de exploração, sobre os regadios; a nacionalização de algumas indústrias de base; a racionalização dos circuitos comerciais. Vai ser definido um código de Investimentos estrangeiros e serão definidos os sectores destinados ao investimento privado e ao investimento público, porque nós, mais uma vez repito, não somos contra a iniciativa privada. Ao serviço da nossa Pátria, não somos contra qualquer iniciativa. Mas ela tem que estar de facto ao serviço da nossa Pátria.
Quando nós pedimos austeridade é porque temos a noção das realidades e sabemos que dias duros se aproximam do nosso País. Aliás, vós vedes todos os dias, por essa Europa fora, milhões e milhões de desempregados. Isso é próprio do sistema. Nós não ultrapassámos o sistema em que vivemos, nem o ultrapassamos de um dia para o outro. Queremos atingir uma sociedade justa, mas até lá muito trabalho teremos de produzir, muito osso teremos de roer e teremos de ter uma coisa sempre na mente: é que deveremos procurar atingir essa sociedade por via pacífica.»

Criação de cooperativas

«Eu também apelo ao povo português para que se organize e associe, criando cooperativas; não tenhais medo das cooperativas. Aqueles que têm melhor a noção disso que expliquem aos outros, que hoje não é o tempo das cooperativas de antigamente. A gente sabe que as cooperativas de antigamente eram uma falsidade. Mas queremos constituir cooperativas e outras associações de outro tipo, que vós mesmos crieis e inventeis. Cremos que a associação, que a união faz a força. Nós apelamos para a vossa unidade, apelamos para o vosso espírito associativo. Se ao princípio tiverdes dificuldades, tende paciência, tende perseverança, tende coragem moral para aguentar as críticas, para aguentar os desgostos. Deveis ter a consciência de estardes a criar um Portugal novo.»


1 Resumo da comunicação de Vasco Gonçalves inserto no número 12 (de 11 de Março de 1975) do «Movimento - Boletim Informativo das Forças Armadas». Os subtítulos são os do «Boletim».

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