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Coleções - Legislação - Entrevista de Vasco Gonçalves ao <>

ENTREVISTA DE VASCO GONÇALVES AO «SUDDE DEUTSCHE ZEITUNG»1

(FEV. 75)

KEMPSKI - Muitos amigos do vosso País estão cada vez mais alarmados com a evolução política em Portugal e, principalmente, com o papel do Partido Comunista. Os comunistas parecem ser a força dominante. Como se explica este facto?

VASCO GONÇALVES - Os amigos de Portugal podem estar completamente descansados. Vou dar-lhe uma resposta apartidária. Qualquer observador objectivo constatará depressa que o Partido Comunista não domina o País. O centro do poder é agora o M. F. A.
KEMPSKI - Diz-se com insistência que V. Exa. estaria próximo dos comunistas e até que teria sido anteriormente membro do Partido Comunista. Uma pergunta muito pessoal: é comunista, sr. Brigadeiro?

VASCO GONÇALVES - Eu poderia responder à sua pergunta com sim ou não, mas ninguém me poderá levar a isso. Segundo um dos pontos fundamentais do Programa do M. F. A. o partidarismo deverá ser posto de parte. O apartidarismo de todos é a base fundamental da unidade das Forças Armadas. Os oficiais que fizeram a Revolução de 25 de Abril do ano passado prometeram mutuamente não se interrogarem sobre a posição política partidária que cada um toma.

KEMPSKI - Contudo gostaria de repetir a minha pergunta.

VASCO GONÇALVES - Porque é que me pergunta se sou comunista? Poder-me-ia também perguntar se sou socialista, uma vez que os dirigentes do Partido Socialista Português, tal como os comunistas, afirmam seguir uma linha marxista. Mas ninguém me poderá levar a quebrar a nossa promessa de não falar sobre tendências políticas. Quem o tenta fazer tem por finalidade dividir o M. F. A. O M. F. A. aceitará todas as ideias que não forem contrárias aos interesses da sociedade e da Pátria, e certamente também as dos comunistas, cuja dinâmica política é utilizada. O que sou é do M. F. A. Esta é a verdade, toda a verdade.
O conflito partidário e a dificuldade de uma coligação.


KEMPSKI - O M. F. A. prometeu, há um ano, introduzir a democracia em Portugal. Em que género de democracia pensa V. Exa.? Pensa numa democracia popular.

VASCO GONÇALVES - Os nossos inimigos falam de democracia popular. Mas nós não temos tais ideias.

KEMPSKI - Tem V. Exa. outros modelos?

VASCO GONÇALVES - Não, não temos modelos. Temos que ter em consideração as condições especiais do nosso País. Queremos encontrar um caminho que conduza ao socialismo com o mínimo de perturbações. Até lá é preciso paciência. Temos que esperar até que o nosso povo esteja para tal política e ideologicamente preparado.
 
KEMPSKI - Evidentemente que o M. F. A. toma uma atitude crítica em relação a certos partidos políticos portugueses. Está V. Exa. desiludido com os partidos?

VASCO GONÇALVES - Nunca pensei assistir a tal conflito partidário. Julguei que os partidos tivessem tirado as suas lições do tempo da primeira República e as levassem em consideração. Mas infelizmente eles não aprenderam muito. Por isso temos agora uma coligação difícil, talvez a mais difícil em toda a Europa. Ela estende-se do centro até aos comunistas. Contudo é essencial para a construção da democracia em Portugal que estas forças formem uma grande coligação.

KEMPSKI - Considera possível que o M. F. A., desiludido com os partidos, deseje um dia a formação de um partido único

VASCO GONÇALVES - Não, pois é importante para a democracia que não haja qualquer partido único. Uma democracia só é possível quando se forma uma coligação de muitas forças. Tudo o resto seria nocivo ao desenvolvimento e à liberdade. Somos pelo pluralismo das forças democráticas e patrióticas.


A duração do papel das Forças Armadas como força política


KEMPSKI - Depois que o M. F. A. se institucionalizou como força política, gostaria de perguntar a V. Exa. por quanto tempo é que as Forças Armadas desejam exercer este papel?

VASCO GONÇALVES - Pensamos numa solução provisória. O nosso Movimento deverá ser institucionalizado na nova Constituição como uma espécie de motor. Pensamos continuar provisoriamente, por um período de 3 a 5 anos, a ter parte activa no processo de democratização; este período provisório deve ser contado a partir do fim deste ano ou seja a partir da data em que se prevê estar a nova Constituição em condições de entrar em vigor.

KEMPSKI - E ao fim de 3 ou 5 anos? Voltarão os oficiais aos quartéis?

VASCO GONÇALVES - Sim, eles voltarão aos quartéis, se para tal estiverem criadas as condições necessárias.

KEMPSKI - Como é que se realiza presentemente no Conselho Superior da Revolução o processo de decisão? Há votações? Tem cada voto o mesmo valor?

VASCO GONÇALVES - Primeiro discutimos para encontrarmos uma solução que seja apoiada por uma maioria. No Conselho da Revolução, procuramos sempre unanimidade. Naturalmente que, sempre que não haja unanimidade, ter-se-á que proceder a uma votação e então a cada um cabe um voto.

KEMPSKI - A nacionalização da banca e das companhias de seguros assustou os investidores estrangeiros. Poderá V. Exa. garantir que o investimento futuro de capital estrangeiro em Portugal continuará a ser lucrativo?

VASCO GONÇALVES - Continuará a haver em Portugal um vasto campo para as firmas privadas. A República Federal Alemã também investe nos países socialistas. Porque é que a R. F. A. ou qualquer outro país não hão-de investir em Portugal? V. pergunta por garantias. Sim, nós damos essas garantias.


A política externa de Portugal


KEMPSKI - Viro-me agora para a política externa, sr. primeiro-ministro. Portugal é membro da N. A. T. O. Haverá alterações?

VASCO GONÇALVES - O Programa do M. F. A. diz que respeitaremos todos os tratados e é exactamente isso o que fazemos. Uma alteração só poderia ser levada a cabo pelo povo português. Mas nós sabemos em que parte do mundo é que vivemos, conhecemos a nossa posição geográfica. Não gostaríamos, naturalmente, de ver a Europa dividida em blocos, queremos paz, mas não por qualquer preço.

KEMPSKI - Como são as relações com a União Soviética? São relações boas ou relações especiais?

VASCO GONÇALVES - Só há pouco tempo é que encetámos relações com os Estados orientais. Em breve estabeleceremos relações com os países africanos. O nosso fim é uma política aberta com todos os países, quer sejam do Ocidente, do Terceiro Mundo ou do Oriente. Queremos que todos nos deixem em paz, para que nos possamos pôr no caminho do desenvolvimento que procuramos. Nas nossas relações nenhum país será privilegiado.

KEMPSKI - Senhor primeiro-ministro, poderá imaginar uma situação em que os E. U. A. possam intervir directa ou indirectamente contra Portugal?

VASCO GONÇALVES - Eu repito: conhecemos a nossa posição geográfica. Queremos viver em paz e sossego, não nos queremos meter na vida de nenhum país, para o que não teríamos também poder. Não, nós somos um povo com uma história de 800 anos, o nosso País tem as mais antigas fronteiras de toda a Europa, somos muito patriotas. Por isso esperamos que não haja qualquer interferência estrangeira. Mas, se isso viesse a acontecer, então lutaríamos pela independência nacional. Falando concretamente: estou convencido de que os E. U. A. nunca interferirão nos nossos problemas internos.

KEMPSKI - Mas se contudo os E. U. A. o fizessem, teria Portugal aliados ou teria que os procurar?

VASCO GONÇALVES - Então teríamos que contar só com as nossas próprias forças.

KEMPSKI - A minha última pergunta, senhor primeiro-ministro: a 25 de Abril, um ano depois da Revolução, deverão realizar-se em Portugal eleições livres para a Assembleia Constituinte. Poderá V. Exa., como chefe do Governo e como brigadeiro, responsabilizar-se pela realização efectiva das mesmas?

VASCO GONÇALVES - Naturalmente.

 1 Texto de acordo com a nota do Ministério da Comunicação Social distribuída em 25 de Março de 1975 aos órgãos de Informação.

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