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As teias do medo (2006)

Elisio Estanque *
 
   
As teias do medo e a ausência do sujeito

 


Trinta e dois anos após a Revolução de Abril e vinte após a integração europeia, Portugal continua a manifestar sinais preocupantes de um país atávico e deprimido onde o Sujeito consciente, activo e livre, capaz de dizer o que pensa parece estar em regressão. Por que será que isto acontece? Porque é que numa sociedade democrática onde os direitos individuais e a liberdade de opinião estão há muito consagrados na lei, continuam a existir tantas situações onde, em vez da opinião aberta e do confronto de ideias, pontificam a inibição e o medo de se dizer o que se pensa? Fala-se muito, mas sob a forma de rumor, de boato do “diz que disse”... Fala-se nos “corredores” por vezes o contrário do que se disse em público, quando em público não nos limitamos a ficar calados e a abanar a cabeça em sinal de acordo.
Esta realidade reflecte uma sociedade ainda amarrada a um conjunto de peias e de medos que, a meu ver, nos impede de alcançar padrões de desenvolvimento e formas democráticas de intervenção cívica nos quais há poucos anos atrás muitos de nós acreditámos (e continuamos a acreditar, apesar de tudo). Porque é que proliferam tantas atitudes bajuladoras do “chefe”, do “tutor”, do “orientador”, do “patrão”, etc? Porque na maioria dos contextos organizacionais se isso não acontecer o mais provável é que nos caiam em cima as mais diversas formas de retaliação, das mais perversas e subtis às mais arrogantes. Enquanto a cultura do mérito permanece incipiente, a cultura da mediocridade torna-se mais forte. Há uma pressão para os “alinhamentos” incondicionais com este ou com aquele, e se as expectativas de quem está na posição de poder não se confirmam é comum que a reacção autoritária se faça sentir sobre “elo mais fraco”. 
José Gil definiu o país no título do seu livro: «O Medo de Existir». Mas o medo existe, de facto. Medo de quê? Medo de possíveis retaliações; do possível despedimento ou do estatuto de “excedentário”; do tratamento desfavorável, da desconsideração, da pequena “vingança” do chefe, do “mentor” ou do “padrinho”. As pessoas sentem uma grande falta de segurança e estabilidade. Isto, associado aos baixos níveis salariais que, como se sabe, estão cada vez mais longe de satisfazer as exigências do custo de vida actual e as expectativas de uma “carreira” ou de um padrão de consumo de “classe média”, favorece a inibição e o retraimento. Num clima geral onde quem  triunfa é em geral o “yes man”, espera-se que todos nos comportemos como tal. Continuamos a debater-nos com necessidades primárias por cumprir. E a segurança é uma delas. Por isso também no mundo empresarial prolifera uma mentalidade que é avessa à mudança, à iniciativa individual, à inovação tecnológica e sobretudo à inovação social e organizacional. As lideranças são em geral medíocres e por isso também favorecem a mediocridade e o carreirismo, cego e seguidista, quer nas novas contratações quer nas avaliações e promoções de quadros e subordinados. O peso dos micropoderes, nas instituições burocráticas e das empresas continua a alimentar múltiplas situações de opressão que asfixiam a dignidade individual, a autonomia e a criatividade de cada um. Quer enquanto trabalhador quer enquanto cidadão, o Sujeito individual apaga-se e esconde-se no anonimato e na esfera privada, inibindo por sua vez a emergência de novos sujeitos colectivos. Porque sem liberdade e iniciativa individual não é possível construir empresas competitivas, comunidades cosmopolitas e uma “esfera pública” dinâmica e exigente.
Mas, embora os factores culturais e a mentalidade submissa estejam enraizados na própria estrutura mental dos indivíduos  pelo menos em muitas camadas sociais , não se pode assacar as responsabilidades deste estado de coisas a uma qualquer essência “individual”. Porque, antes de mais, as instituições democráticas, os departamentos do Estado, o governo, o parlamento, as universidades e os próprios partidos políticos, nada têm feito para promover culturas de responsabilização das pessoas, criar procedimentos e mecanismos de diálogo orientados para a participação e para estimular a iniciativa de cada um. E no nosso país não só não o fazem como, não poucas vezes, é daí que vêm os piores exemplos. 

  * Sociólogo  Centro de Estudos Sociais da FEUC

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