João Abel Manta [1928-2026], o traço foi a sua arma

Foi uma das personalidades mais marcantes das artes gráficas portuguesas do século XX, cuja obra atravessou a arquitetura, a pintura, o desenho, a ilustração e o cartoonismo com uma visão profundamente ética, crítica e humanista.

 

Nascido em Lisboa, em janeiro de 1928, cresceu num ambiente artístico e intelectual que moldou a sua sensibilidade criativa e o seu olhar atento sobre a sociedade, afirmando-se desde cedo como um autor multifacetado e interventivo. Contactou com diferentes realidades culturais através das viagens que realizou pela Europa, passando por países como Itália, França e Holanda.

Frequentou o curso de arquitetura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, colaborando posteriormente com o arquiteto Alberto Pessoa em importantes projetos urbanísticos e arquitetónicos, como o conjunto habitacional da Avenida Infante Santo e o edifício da Associação Académica de Coimbra e Teatro Académico de Gil Vicente. Apesar do sucesso nesta área, seria nas artes visuais que encontraria a sua verdadeira vocação.

 

A sua carreira artística desenvolveu-se entre o desenho, a pintura, a cenografia, a tapeçaria, a cerâmica e a azulejaria, demonstrando uma versatilidade excecional. Contudo, foi no cartoon e na ilustração política que alcançou maior notoriedade. Influenciado pelo neorrealismo, utilizou a arte como instrumento de denúncia das desigualdades sociais, da repressão política e das contradições do Estado Novo. Abel Manta é preso pela PIDE, no Forte de Caxias, em fevereiro de 1948, por ligação ao MUD Juvenil.

 

 As suas caricaturas e composições gráficas revelavam um olhar satírico, mordaz e profundamente interventivo, conseguindo frequentemente contornar a censura através da ironia e da subtileza artística.

 

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, tornou-se presença regular em importantes jornais e publicações portuguesas, como o Almanaque, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias e O Jornal. Os seus cartoons transformaram-se em verdadeiros símbolos culturais do período anterior e posterior ao 25 de Abril, acompanhando os tempos agitados da queda do regime, da revolução e do PREC. A sua ligação à imagem do MFA e à defesa dos valores democráticos ficou igualmente expressa em inúmeros cartazes e obras gráficas produzidos nesse contexto.

 

Entre os trabalhos mais marcantes destacam-se as ilustrações para obras como A Cartilha do Marialva e O Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires, bem como cenários para peças inspiradas em autores como Eça de Queirós, Franz Kafka e Luís de Sttau Monteiro. Produziu ainda murais, tapeçarias, mosaicos e painéis cerâmicos para diversos espaços públicos e culturais. A partir da década de 1980, afastou-se progressivamente do cartoon político e dedicou-se mais intensamente à pintura.

 

Ao longo da sua vida, João Abel Manta recebeu diversas distinções e homenagens, vendo a sua obra exposta em importantes instituições culturais nacionais e internacionais. O seu legado permanece como um testemunho essencial da história contemporânea portuguesa, da resistência cultural ao autoritarismo e da capacidade da arte em questionar, provocar e transformar consciências. Os seus cartoons e ilustrações continuam a recordar as dores, os excessos e as contradições do passado, preservando vivos os valores da liberdade, da democracia e da memória coletiva.

 

Em homenagem a quem desenhou o país com a mestria de um traço certeiro e acutilante, o CD25A-UC disponibiliza através do seu website, uma seleção de desenhos da sua autoria, bem como um vídeo produzido em 2021 para o público escolar no âmbito da rubrica "Fora da Caixa".